Opinião

A hora de mostrar que aprenderam

DENTE DE LEÃO - Opinião de Marcos Cruz

Está à vista que, para quem quer ganhar este campeonato, a margem de erro anda próxima do zero, o que injecta carga dramática em cada derrota que surja pelo caminho.

Porto e Sporting, como ainda ontem referiu Rúben Amorim, perdem poucos pontos, de modo que isso não basta para satisfazer os seus adeptos, inevitavelmente vinculados a uma análise comparativa. No entender de quem puxa por uma das equipas, não interessa muito ela perder poucos pontos se não for a que perde menos, pois só isso lhe conferirá o título. Tal é a ambição de dragões e leões nesta selva de régua e esquadro.

Já ao Benfica não se aplica o mesmo raciocínio porque o Benfica não perde poucos pontos. Mas, atenção, há toda uma volta do campeonato por percorrer e numa volta de campeonato muitas voltas dá a vida, pelo que ninguém pode negar às águias as suas legítimas aspirações ao sucesso. Parece-me, ainda assim, que este Porto está diferente para melhor, quando comparado com os outros Portos de Conceição, precisamente porque não se mostra disposto a facilitar, como se soubesse de antemão que uma derrota pode ser a morte do artista.

Entendo o discurso de Carlos Fernandes ao dizer, após o jogo com o Santa Clara, que a equipa "não perde, aprende", mas convém, em função das dificuldades que a luta pelo topo desta liga apresenta, não precisar de perder para aprender, tanto mais que ninguém ali é um estreante no futebol e de há muito se sabe que quem vai ao mar perde o lugar - e o Sporting aproveitou a ida à ilha para mergulhar a fundo.

Agora não adianta chorar sobre o leite derramado, mas se o diagnóstico do treinador foi falta de intensidade e agressividade, a terapêutica é clara: não admitir que se repita. Embora todos reconheçamos a invulgar capacidade de liderança de Amorim, ele não é intocável, nem se justifica que tenha um efeito de eucalipto sobre a opinião de cada sportinguista, pelo que me permito confessar aqui o receio de que, nesta altura, a sua tendência para a leveza possa não ser o remédio indicado.

Há momentos e momentos. Este, em meu entender, e face ao que vi, é o momento da excepção à regra, e talvez a intensidade e agressividade pudesse, uma vez sem exemplo, perceber-se também no tom do treinador. Entretanto, muito se tem falado de reforços. É a poeira habitual e em pouco redundará.

Pontas-de-lança de qualidade não os há aos molhos, pelo que não estou a ver Paulinho a ter quem o ponha nos eixos. É caçar com gato, paciência. Já Marcus Edwards daria jeito, para apertar com Pote, a ver se o ketchup volta a sair. Em todo o caso, não me parece uma urgência. Urgência é, como reza o mantra de Amorim, vencer (merecidamente, acrescento eu) o próximo jogo. Por agora, mais nada.

Marcos Cruz