DESCALÇO NA CATEDRAL - Um artigo de opinião de Jacinto Lucas Pires.
O selecionador falou e o povo escutou. Vem aí o Euro, esse momento em que a Europa larga todas as suas questões complicadas para se concentrar à volta da forma simples de uma bola.
Vamos a isto, caro engenheiro? É uma alegria ter uma seleção assim: juntando juventude e títulos, experiência e genica, e repletinha de craques com gosto pelas artes de bem tratar o esférico.
Éuma alegria, sem dúvida. Mas, aqui entre nós: uma alegria não isenta de dor. De cada vez que saem estas convocatórias - vendo os selecionados que se foram do Benfica cedo demais e são agora indispensáveis nos clubes e na seleção -, o meu coração de adepto não consegue deixar de sofrer. Tanta glória desperdiçada pelo Glorioso...
O administrador Soares de Oliveira (um dos manda-chuvas do Benfica que, ao que parece, tem autorização de Jorge Jesus para falar em público) diz que agora a estratégia é "guardar talento". Muito bem, ótimo. Se tivéssemos guardado o talento de Bernardo Silva, João Félix ou Renato Sanches, por exemplo, talvez estivéssemos a falar de anos dourados e não de uma milionária época falhada. Seja como for, mais vale tarde do que nunca (embora, depois de tanto ziguezaguismo, seja difícil levar a sério o que dizem os manda-chuvas). Além disso, não ajuda que Soares de Oliveira venha sugerir que a compra de Darwin é uma aposta na formação. Ai, é isso que entendem por "formação"? Então, se calhar, sentar Gonçalo Ramos quando ele mostra instinto de matador faça parte da mesma "estratégia" - será?
A propósito, deram conta do prémio de Rúben Dias na Liga Inglesa? A 27 de setembro, escrevi aqui que o Benfica se preparava para vender "o único titular que restava da formação, o único jogador do Benfica que faz parte do onze da Seleção Nacional". E perguntava se era isso que queríamos, que o Benfica fosse "um viveiro de outros clubes"? Pois, foi o que aconteceu - mais uma vez. Porque raio é que os jogadores formados cá não podem chegar cá ao topo da Europa?
A luta europeia é a de "pensar globalmente e agir localmente", e hoje o grande momento é a final da taça, com o Braga. Não podemos encarar o jogo no registo a-ver-se-ganhamos-alguma-coisinha. Isso é receita para o desastre. Por outro lado, cuidado também com o excesso de receitas e truques. No domingo passado, Luís Freitas Lobo escrevia neste jornal sobre os riscos do "futebol adulto", de atafulhar os craques de informação até a um ponto em que eles congelam. Não sei se foi por aí, por falta de empatia do técnico ou por uma combinação desses dois fatores, mas, esta época, sentiu-se muitas vezes a equipa benfiquista presa, sem ânimo, demasiado autoconsciente. Que hoje o Benfica jogue livre, livre, com a alegria desamarrada do futebol de rua.