Opinião

Luís Filipe Vieira e o "striptease" do regime

BOLA DE TRAPOS - Um artigo de opinião de Miguel Carvalho.

O presidente do Benfica, perdão... o presidente do Conselho de Administração da Promovalor entrou há dias na Assembleia da República como se não devesse nada a ninguém. Nem sequer explicações.

Ouvido no âmbito da comissão parlamentar de inquérito ao Novo Banco, Luís Filipe Vieira parecia, por momentos (quatro horas, vá...) outro Dono Disto Tudo, produção industrial na qual o País parece estar a especializar-se.

Atente-se na narrativa: ele veio de baixo, do povo. E se há algo que as elites não perdoam é o facto de alguém sem "pedigree" ter vencido na vida empresarial. Por isso o chamaram ali e o sujeitam a um interrogatório que, "se for assim todos os dias", é bem capaz de matar um homem. Ou até mesmo um português de bem.
Vieira, não sei se sabem, é vítima de calúnias. Ah, pois é, por esta não esperavam.

Ele, segundo maior devedor do BES/Novo Banco, para cima de 200 milhões de euros?! Não, senhores deputados, equivocam-se. Incumprimentos? Onde leram isso? Documentos na vossa posse? Interpretações, não provam nada. Façam o favor de não me assustarem, ainda me dá o fanico.

Na verdade, um empresário desta estirpe, de dar a cara e enfrentar a verdade, não foge nem estaria sequer de rabo sentado no Parlamento, se não fizesse contas ao que deve. Outros, sim - e isso é que revolta! - andam a passear, têm iates, aviões e pediram insolvência. Vieira teve amigos, pronto. Não se pode, é? Teve amigos que lhe sugeriram bons negócios, amigos que o salvaram de maus investimentos, amigos que pegaram nas suas dívidas e as restruturaram. Tudo para pagar "mais à frente". Quando der, presidente. De certeza daqui a 10, 15 anos. Se não levarem a mal, que ele é um homem novo, levantado do chão, erguido das intempéries do mercado, mais passivo menos passivo.

Sim, Vieira teve amigos para todas as estações e apeadeiros. Nos sítios certos, à hora esperada, na curva apertada. A credibilidade dele era tal que até teve amigos que lhe pediram pelas alminhas que salvasse o clube, que estava à espera de ser salvo por ele, pois nem imaginam como Vieira encontrou o ninho da águia. E esses amigos eram...? "Instituições financeiras". Banqueiros, pronto. Sim, banqueiros. Salgado - prefiro chamar-lhe Ricardo, sempre houve certa proximidade... - e outros. Os bancos estavam interessados na "viabilização" e ele sentiu o chamamento. "Interpretei esse pedido como uma prova de confiança nas minhas capacidades e na minha palavra, tendo em conta a situação de extrema fragilidade que o Benfica atravessava". Há homens assim. Providenciais. O outro também é do Benfica, mas joga na política, braço estendido.

Ser presidente do clube não lhe trouxe problemas empresariais. Nadinha. O tipo que fez certos contratos, sim, devia aparecer aí pendurado. Enforcado, pronto. Ai chama-se Mário Centeno? É-me familiar... Dívidas? Lá estão vocês com as dívidas. Senhores deputados, com todo o respeito: eu só estou aqui, com esta pachorra, porque sou presidente do Benfica. Sim, por isso fui "escrutinado até à exaustão"! O único bem que tenho é um palheiro, mas, desculpem, não vivo lá nem falo do meu património. Tenho "algumas sociedades com outras pessoas". Chega?A memória falha-me, não sei onde estão os papéis. Mandem-me as perguntas. "Até na sua

defesa e da sua imagem, não podemos continuar nesta ausência de respostas (...) Peço-lhe que faça o maior esforço possível para responder de forma clara e objetiva". O Negrão anda impaciente, coitado. Isto do Novo Banco é velho, deputados sofrem. No meu caso, "tenho outros negócios, uma boa reforma, vivo bem. Ainda agora fui reforçar a conta com dois milhões e tal de euros que recebi do fisco". Se me deixassem sair daqui é que era. Querem bilhetes para o Benfica-Sporting? Não inclui guarda de honra ao campeão por causa da covid, era o que mais faltava. Vemo-nos por aí, sim? Carrega, Benfica!

Miguel Carvalho