Opinião

O caos será total e o futebol, para já, é o menos

FORA DA CAIXA - A opinião de Joel Neto.

O futebol inglês prepara-se para transformar o Brexit num mecanismo de filtragem de jogadores estrangeiros, e não se pode dizer que seja uma medida estúpida do ponto de vista da protecção da indústria contra as agressões de que (também ela) será alvo por parte da mais estúpida decisão alguma vez tomada pelo povo britânico.

Mas ao porem a tónica no mérito, em vez de no direito, a The Football Association, a Premier League e a English Football League não apenas se afastam declaradamente dos valores europeus, mas vão cometer uma série de injustiças que as caracterizará - a elas e ao país - nesta transição e no futuro.

E o pior é que isso ainda será o menos. Questões de cidadania, residência, tributação, acesso ao Estado - tudo isso estará em jogo para muita gente. Os jogadores de futebol são uma minúscula parte dessa gente. O cenário que se prevê a partir de 1 de Janeiro, com as alterações fronteiriças e aduaneiras, é de caos. As cadeias de distribuição serão manietadas, as escassezes não tardarão, o emprego vai ressentir-se e os motins são mais do que prováveis. Isto de permeio não só com uma pandemia, mas com o arranque de uma campanha de vacinação global, para que o Reino Unido contribui com uma vacina com menor grau de imunização (mau para eles) mas também mais barata, fácil de distribuir e muito esperada em dezenas de países em vias de desenvolvimento (mau para o mundo).

Ao pé disto, o futebol não chega a ser "a mais importante das coisas menos importantes", como proclamou o "Estadão". Mas, sim, também é um problema - inclusive para Portugal, um fornecedor. Aceitam-se apostas: quantos jogadores, daqueles que jogam em clubes menos destacados, acabarão por ter de regressar à Europa? "Regressar do Reino Unido à Europa." Até custa a dizer.

Joel Neto