VISTO DE ITÁLIA - Um artigo de opinião de Cláudia Garcia.
A Liga portuguesa deixou de ser transmitida em Itália já há alguns anos, evidentemente porque ninguém a quer transmitir ou considera interessante pagar por este produto.
Um produto que, aliás, não tem qualquer credibilidade internacional, nem gera muito interesse, com a exceção de dois ou três jogos ao ano.
Uma coisa é a força de dois ou três clubes e de um empresário para vender jogadores a 80 ou 100 milhões de euros e que, na maioria das vezes, nem justificam tal investimento, outra coisa é a reputação de um torneio que dura nove meses ao ano, que envolve 18 clubes de 15 cidades diferentes, com jogadores e treinadores de grande valor. E, neste último quesito, estamos totalmente desvalorizados no mercado internacional. Além disso, um aumento de receitas por parte de alguns clubes pequenos, como temos assistido, também não se traduz em evolução do campeonato interno. De uma vez por todas, entendam que o negócio faz parte do futebol, mas os clubes não se podem resumir a agências de trading de jogadores. Neste aspeto, o crescimento do Nápoles, em Itália, da quarta divisão amadora até à luta pelo scudetto, com Sarri, é o maior exemplo do que deve fazer um clube com ambições. O modelo parece ser o de comprar jogadores baratos e vender caro, mas é muito mais do que isso. A maioria deles cria raízes no clube antes de ser vendido, já para nem falar da forma minuciosa como estes jogadores são escolhidos.
Em Portugal, é urgente apostar num modelo de crescimento da I Liga. Para tornar este produto mais atrativo, não só em Itália, mas em todo o mundo, é preciso, com certeza, repensar o modelo organizacional da Liga de Clubes, que tem de centralizar a distribuição dos direitos televisivos e ter mais autonomia nas decisões, mas não basta. Para deixar de ser o campeonato dos três grandes, é preciso que os pequenos cresçam, que os deixem crescer, e que deixem de ser meros assistentes em busca de um bom negócio e pensem um bocadinho mais na parte desportiva e um bocadinho menos naquela financeira. Neste aspeto, o melhor exemplo é a Premier League. Com menos dinheiro e menos contratações sonantes, a Bundesliga também tem um modelo interessante e propõe sempre equipas muito competitivas no panorama europeu. Temos um campeonato que exporta jovens talentos para toda a Europa e onde nascem treinadores que fazem história pelo mundo, mas ninguém quer assistir aos nossos jogos. Credibilidade não se ganha só com turismo e organização de eventos desportivos.