Opinião

O debate tabu que faz falta ao Sporting

De 1982 (o princípio do fim da frequência de conquistas leoninas) até aos dias de hoje, passaram 37 épocas: apenas dois títulos nacionais (1999/00 e 2001/02) entraram na vitrina leonina durante este longo período

A ferida no Sporting é tão profunda quanto a sua honra, uma espécie de tamanho que torna tudo muito difícil. À grandeza enquanto emblema (somando histórico, número de sócios, o seu ecletismo e património...) não tem correspondido uma equipa de futebol conquistadora.

Esteve lá muito perto com Jorge Jesus, o que é confundível, no tempo, com uma administração ambiciosa, cujo general - Bruno de Carvalho - se perdeu em labirintos pessoais e intransmissíveis. O carisma, que nem sempre é bom, nem sempre é mau, é carisma. E o carisma é, sobretudo, empático para com os que desesperam de forma sebastiânica por alguém que ponha o Sporting no caminho do sucesso. Bruno até tinha carisma, mas a gestão de uma instituição com a grandeza do Sporting implica muito mais do que carisma pessoal. Isto sem entrar na discussão do que de bem ou mal fez, e se é ou não inocente em episódios que aqui não são chamados.

O foco do problema chama-se sucesso, o que, no futebol português, passa por ganhar campeonatos com frequência, algo que não acontece ao Sporting há muito tempo. De 1982 (o princípio do fim da frequência) até aos dias de hoje, passaram 37 épocas. Apenas dois títulos nacionais (1999/00 e 2001/02) entraram na vitrina leonina durante este longo período. A ferida tem, portanto, essa idade. E, como todas as feridas de longa duração, só um tratamento radical - e nem por isso seguro - permitirá aos leões começar a recuperar para não perder o que já começa a ser apenas estatuto mediático: o de grande de Portugal.

É no formato da solução, na fórmula a aplicar, que parece não haver espaço para milagres. Com adeptos desavindos e sócios desacreditados, investidores amedrontados - sem dinheiro não há valores e competências seguras na equipa de futebol - e sem peso nas decisões orgânicas do futebol, nomeadamente na associação patronal (a Liga), onde não tem sociedades desportivas aliadas ou preferenciais para negócios (leia-se: transferências e empréstimos), não adianta muito ao Sporting ter uma direção dirigida por um "veterano" do Afeganistão. O Sporting precisa de um pouco mais do que a credibilidade pessoal de Frederico Varandas. O que não o desliga da solução. Apenas acho que não basta a sua credibilidade pessoal.

Há uma medida radical que tem sido debatida em surdina ou a medo. E porquê tanto caldo de galinha nesse debate? Porque é bem visível que os ânimos, dos sócios e adeptos aos comentadores afetos (das redes sociais às televisões), não permitem um debate inclusivo. Aliás, aposto que um debate sério sobre essa possibilidade dividiria ainda mais a nação sportinguista. É, por isso, um debate tabu, à espera sabe-se lá do quê.

Falo da possibilidade de abrir a maioria da SAD a acionistas, investidores com grandeza económica e financeira. Por muito que muitos achem o contrário, ninguém investe a sério sem garantias de gestão do seu investimento. E essas garantias só acontecem com os próprios investidores a administrar o seu investimento.

Mas esta solução radical, que abriria as portas ao investimento com dimensão (é só saber escolher os parceiros e saber contratualizar sem perder os anéis do clube), é mal vista por mesmo muita gente no Sporting. É mal vista, apesar dos exemplos funcionais em Portugal - o Braga, por exemplo - e no estrangeiro, onde os clubes com maiores sucessos são hoje autênticas empresas, geridas pelos que mais dinheiro carregam no emblema, e dos quais não têm desaparecido adeptos. Aliás, são muitos os exemplos de crescimento de simpatizantes a partir dessa fórmula.

É verdade que Real Madrid e Barcelona (assim como outros emblemas com dimensão para sobreviverem com os clubes na sua própria gestão) mandam nos destinos das suas equipas de futebol e são os seus principais investidores. Mas têm receitas mais do que suficientes para o serem. Ou seja, é a circunstância que determina o modelo.

Este debate em torno das circunstâncias e do modelo de gestão - e não encontrem nas minhas palavras qualquer preferência pelo modelo de gestão do Sporting ou de qualquer clube/SAD português - tem de começar a ser feito de forma franca e aberta no clube e na SAD leonina. E, então, depois de tudo discutido, deixar os sócios escolher entre perder o controlo da gestão da SAD mas ganhar dimensão, pelo menos económica, ou continuar a perder campeonatos (e grandeza) uns atrás dos outros, olhando à tendência e aos ciclos socioeconómicos da instituição.

Debater, esclarecer, ponderar em conjunto de forma franca e aberta, independentemente de permanecer no mesmo modelo de gestão da SAD ou escolher outro, deveria servir para unir os sportinguistas em torno de um objetivo, encontrando pontes entre os atuais desavindos. Mas, como disse acima, a ferida é enorme e não me parece que se trate à lambidela.

Redação