Futebol

"Competições europeias todo o ano ao fim de semana prejudicarão, ou destruirão mesmo, as provas nacionais"

João Vieira

ENTREVISTA (parte 3) - Aleksander Ceferin, presidente da UEFA, revela-se, afinal, contrário à entrega dos fins de semana às provas internacionais. Pelo menos, todo o ano.

Onde estará o futebol dentro de dez anos?

- É difícil responder numa frase. O futebol é, talvez, a maior indústria do mundo. Com toda a certeza, é o melhor produto da Europa. Temos de o modernizar, de digitalizar mais, de o adaptar aos tempos modernos, precisamos de jovens dos dez aos vinte anos. As minhas filhas já não veem televisão; só telemóveis e tablets. O futebol continuará a ser o futebol e, apesar de termos de modernizar, eu ainda gosto dele um pouco mais conservador. Vi, quando cheguei, como esta é uma boa indústria, com algumas pessoas que não têm um grande desejo de melhorar, de desenvolver, porque os salários estão em dia, há dinheiro suficiente e tudo parece bem. Mas não podemos pensar assim. Temos de modernizar. Falei com os comissários da NBA e da MLS; podemos aprender com eles, tal como eles podem aprender connosco. Afinal, somos maiores do que eles todos. A UEFA é, de longe, a maior organização desportiva do mundo. Somos três ou quatro vezes maiores do que a FIFA. Fizemos agora parcerias com a Alibaba, para a digitalização. Há um mercado de 1,4 mil milhões de pessoas à espera na China; há um gigante adormecido chamado Índia, com mil milhões de pessoas; há um mercado fantástico na Indonésia, com 250 ou 300 mil pessoas. Temos de modernizar porque o nosso produto é global seja como for. Não é só europeu. Vemos os jogadores que atuam nas ligas europeias: são de todo o mundo e todo o mundo está a vê-los.

Onde estarão as ligas médias, como a portuguesa, dentro de dez anos?

- Essa preocupação é das ligas médias, mas também das pequenas ligas, como a eslovena. Temos de cuidar do futebol em todos os países. Percebo as preocupações de um ponto de vista e do outro. Não há outra indústria no mundo com setecentos competidores pelo mesmo produto. Haverá sempre discordâncias; existem em todas as indústrias. Mas se jogarmos competições europeias, todo o ano, ao fim de semana, isso prejudicará, ou destruirá mesmo, as competições nacionais, em especial nos países mais pequenos. Ainda pensamos que tem de haver ligas nacionais e preocupamo-nos com elas também. Mas é claro que quando se fala de equilíbrio competitivo e do facto de um apuramento para a Liga dos Campeões gerar tanto dinheiro que, só por si, arruína esse equilíbrio, também se deve falar do relacionamento entre as ligas. A Premier League dá algum dinheiro aos outros países que ajudam valorizá-la? Não dá. Portanto, se a solidariedade parte da UEFA, também tem de partir de todas as outras grandes ligas. Temos de pôr tudo na mesa: os clubes, as ligas e a UEFA, porque toda a gente aponta o dedo à UEFA. UEFA, UEFA, UEFA. Somos os únicos a distribuir 85% das receitas. Talvez 45 federações não sobreviveriam sem a UEFA. Não somos um banco para gerar dinheiro. É fácil dizer que a UEFA tem de garantir o equilíbrio competitivo, mas o que podemos fazer na Liga portuguesa? Nada. Somos responsáveis pelas competições europeias, apenas. Temos de nos sentar e as grandes ligas devem mostrar solidariedade com as ligas médias e pequenas. E a UEFA, naturalmente, fará o mesmo.

Quando a UEFA pediu à União Europeia para negociar de forma centralizada os direitos TV da Liga dos Campeões, invocou que isso permitiria distribuir mais dinheiro aos clubes menos ricos. Mas está a acontecer o contrário: a nova fórmula dá ainda mais dinheiro aos clubes ricos, criando ainda mais desigualdade. Como se explica isto?

- Não diria isso. Em termos de dinheiro, depois da mudança, a solidariedade aumentou. O problema é que se tornou mais difícil a qualificação para as provas. Nisso estamos de acordo. É o que incomoda as ligas médias. As pequenas já não se qualificavam de qualquer maneira. Ficam felizes com o que receberem.

O FC Porto vai receber, pelo menos, 70 milhões de euros da Liga dos Campeões esta época. A diferença para o Sporting, terceiro classificado e agora sem lugar na Champions, é gigantesca e ameaça o equilíbrio competitivo.

- A diferença está cada vez maior. É um dos problemas, concordo. Mas isto não é só sobre a Liga dos Campeões; é sobre tudo.

O fair play financeiro está a ser contestado em tribunal pelo Milan e pelo PSG, e o mesmo pode suceder com outras regras importantes. É possível controlar os gastos e a inflação sem convencer a União Europeia de que a indústria do futebol e a dos sapatos são coisas diferentes?

- Demasiadas vezes misturamos o fair play financeiro com o equilíbrio competitivo. O fair play financeiro foi um sucesso; basta ver como estavam as finanças dos clubes antes e como estão agora. O que resulta dele agora é o equilíbrio competitivo. Aí estamos a lutar. O sistema não está suficientemente modernizado. De um lado temos equipas com recursos ilimitados, que contratam especialistas de todo o lado. O nosso sistema é conservador. Nos dois casos de que falou, temos um acordo com a Câmara de Investigação [parte do corpo de controlo financeiro da UEFA] em que o clube aceita seguir determinados procedimentos e depois temos a Câmara Adjudicatória [idem] que muda completamente a decisão da mesma instituição. A seguir vamos para o TAS e cai tudo. Temos de perceber como proceder de forma que estes processos sejam mais sólidos.

Há o perigo sério de várias outras regras da UEFA e da FIFA serem revogadas em tribunal, com consequências trágicas. A FIFPro chegou a falar em banir as janelas de transferências para permitir as saídas e entradas de jogadores a qualquer momento.

- Duvido que possa acontecer. Como você disse antes, a indústria dos sapatos é diferente da indústria do futebol. Na Eslovénia, depois de dois contratos a termo estamos contratados pela empresa em definitivo, mas isso não é possível para os futebolistas. Assino dois contratos de um ano e depois sou empregado do clube para a vida inteira? Os cidadãos europeus podem trabalhar livremente em qualquer país da EU, por causa da concorrência, por causa do mercado livre, mas o futebol é diferente. Toda a gente joga no estrangeiro. Qual é o verdadeiro perigo para o mercado livre? O facto de toda a gente ir para Itália, Espanha ou Alemanha ou o facto de se poder ir para qualquer lado?

Não tem receio de um novo acórdão Bosman?

- Não, não. A FIFPro é contra quaisquer mudanças. É verdade aquilo que disse: o futebol é diferente. Estamos sempre a tentar conversar sobre isso com a União Europeia.

José Manuel Ribeiro