Aos 100 dias de governação, melhor dizendo, desde que venceu as eleições no Sporting (tomou posse no dia seguinte), Frederico Varandas só não está em estado de graça porque o "brunismo" está para o Sporting como a indignação populista está para Portugal: há sempre descontentes até ao dia em que se distribuírem migalhas ou se conquistarem títulos.
Pouco mais de três meses após a eleição da atual Direção, pode afirmar-se à boca cheia que o Sporting de Frederico Varandas é um emblema menos crispado para o exterior. A elegância dos atos do antigo médico do plantel principal contrasta com a atitude guerreira do seu antecessor. Que é como quem diz, os leões alisaram a juba e afiaram as garras, atendendo aos resultados desportivos.
No fim de semana imediatamente anterior à sua primeira marca política - os 100 dias de governação sob o ponto de vista mediático remontam aos primórdios das democracias do século XX, nomeadamente no pós I Guerra Mundial -, Frederico Varandas conseguiu duas importantes vitórias, das que nada decidem no imediato, mas que estarão na história de um qualquer sucesso futuro, caso venha a acontecer:
1. Manter Bruno de Carvalho impedido das atividades sociais do clube (um pouco mais de dois terços pela continuidade da suspensão, votada em assembleia geral), assim como dos seus seguidores mais ativos (sócios e antigos diretores suspensos e castigados);
2. A reviravolta frente ao Nacional, no domingo passado, equipa que até esteve a vencer por 2-0 em Alvalade e acabou arrasada por 5-2.
A quinta goleada da equipa do holandês Marcel Keizer em seis vitórias (o pleno dos seus jogos) acalenta os incontidos desejos leoninos de voltar a ganhar o campeonato. A dois pontos do líder FC Porto e com mais dois que o rival Benfica, o Sporting tem o Braga nos "calcanhares", a um ponto. Estão decorridas 13 jornadas, mais de um terço do campeonato.
Ou seja, no plano desportivo, Varandas parece ter ganho o primeiro "round", que se iniciou com a dispensa de José Peseiro por troca com o técnico holandês, que se passeia nas primeiras graças e louvores dos associados e simpatizantes.
A garra e o futebol alegre de Keizer farão esquecer a garra e o futebol ambicioso de Jesus? O tempo o dirá. Ainda é cedo para ver analisar nas bancadas, mas que os bons resultados no campo estão quase sempre associados a bons resultados nas bilheteiras...
Refira-se, a propósito, que as médias oficiais do Sporting de Jorge Jesus, para a I Liga e Taça da Liga, são interessantes: a melhor média de ocupação (87,16%) aconteceu na época passada (43.623 espetadores por jogo), com um acumulado (segundo melhor, atrás do Benfica) superior a 741 mil adeptos. Os números são similares nas duas épocas anteriores, também elas "conduzidas" por Jesus. Bruno e Jesus não ganhavam (à exceção da Taça da Liga, na época passada), mas galvanizaram.
Aos 100 dias entra-se, também, no mês de decisões de mercado e financeiras: são vários os dossiês no plantel para decidir: Bruno César (ainda hoje os brasileiros do Globo lhe apontam o Vasco da Gama no futuro imediato), Misic, Marcelo, Lumor, Petrovic, Carlos Mané e outros... Tudo jogadores que dificilmente prosseguirão na equipa de Keizer.
Por outro lado, e apesar da machadada financeira que os estilhaços provocados pela invasão de Alcochete - primeiramente contidos por Sousa Cintra -, terá que haver dinheiro para um ou outro reforço a pedido do novo treinador. Por muito que a escola holandesa aponte para a Academia e por muito que esta vá dando "munição" de forma continuada ao plantel leonino, poderá ser necessário dotar a equipa de recursos imediatos, para que as promessas de glória não se tornem vãs.
É que, ainda por cima, há mais um rival direto para as aspirações do Sporting, que ainda força oportunidades europeias esta temporada (vem aí o Villarreal, nos 16 avos da Liga Europa): o Braga.
Com vaga e "meia" na Liga dos Campeões, com apenas uma vaga direta na Liga Europa (para o vencedor da Taça de Portugal), este Sporting, que Varandas tenta "remendar" de uma série de buracos herdados, obriga-se a rapidez e certeza nas decisões.
No meio de tudo isto, existe ainda uma oposição determinada, que mantém alguma aura sebastiânica na figura de Bruno de Carvalho. Desde logo, ao nível da comunicação digital, com muitas das anteriores ferramentas de apoio à Direção (blogues, grupos de Facebook, agitadores de Twitter) em modo de independência crítica, já que se tratava da massa crítica de público afeto ao anterior presidente.
A SAD e o clube resolveram concentrar os seus meios de comunicação, tê-los mais perto dos modelos de decisão política, o que estão agora a fazer com a LPM, que supervisiona a estratégia comunicativa da Direção de Frederico Varandas.
Por fim, os acertos financeiros de uma sociedade desportiva com muito para resolver, ainda. Mas foi sintomático, para estes primeiros tempos de governação Varandas, o acordo (18 milhões de euros pagos pelo Wolverhampton) pela transferência de Rui Patrício. E não menos simbólica foi a chamada de recentes glórias do clube para tarefas relacionadas com a gestão do plantel, nomeadamente Hugo Viana e Beto.
O Sporting apresenta-se de juba penteada. Mas não foi há muito que esteve muito desgrenhada. Para 100 dias e depois de um certo caos na pré-época, não está nada mal.