Lei interditada

José Manuel Ribeiro

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O processo é este: viola-se a lei durante 13 anos, manda-se o IPDJ pentear macacos, muda-se umas linhas num regulamento e, pronto, caso encerrado

Uma pergunta ingénua para o Sr. secretário de Estado da Juventude e do Desporto. Imaginemos que, amanhã, um clube profissional permite que se forme, lá dentro de casa, uma claque. Essa claque recusa legalizar-se. Apesar disso, e violando a lei, o clube permite-lhe que entre no estádio com toda a parafernália das claques: bandeiras, bombos, lonas, panos, etc. Vão repetir-se alegações de que até lhe fornece dinheiro e géneros. Isto vai repetir-se todos os jogos, durante os próximos 13 anos, de maneira franca e aberta, comprovável a olho nu por qualquer pessoa com acesso a um televisor. No fim desse tempo, o ruído já vai alto e o Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) chama o clube ao lado, para lhe sussurrar: "Faz lá umas mudanças no regulamento do estádio, que estes gajos são muito chatos." À terceira ou quarta insistência, o clube lá aceita rasurar o papelito e, pronto, o executor da lei fez o seu trabalho. É mesmo assim que funciona? É assim que se aplicam as leis de segurança no desporto? Mesmo quando está em causa a claque-fantasma que, segundo os registos da polícia (revista "Sábado" de 4 de maio último), é responsável pelo maior número de incidentes no desporto nacional, a uma larga distância das outras? A partir do momento em que o IPDJ decidiu estabelecer estes recordes olímpicos da paciência e da compreensão no caso Benfica (pág. 2 e 3), por que diabo hão de os clubes preocupar-se em respeitar a lei? Qual será a justificação do IPDJ para lhes interditar um estádio? E da próxima vez que um ministro vier anunciar um novo pacote legislativo para garantir a segurança no desporto - talvez por ocasião da morte de mais um adepto -, esperemos que posicionem um caixote de lixo perto. Para haver um ganho de eficiência.