Ainda ontem de manhã Arsène Wenger, treinador do Arsenal, que é um género de apóstolo Paulo do futebol-espectáculo, falava da Espanha como uma beata falaria da filha do vizinho depois de a ter apanhado em minissaia e a fumar: "Traíram a sua filosofia e tornaram-se qualquer coisa de negativo. No começo, queriam a posse de bola para atacar e vencer o jogo. Agora, parece que, acima de tudo, querem não perder."A essas horas do dia, fazia sentido apenas porque foi esse o caminho que as análises levaram, sobretudo em Inglaterra, onde logo no arranque do Europeu o futebol da Espanha levou o rótulo de "aborrecido". Não importa se, no Mundial de África do Sul, os espanhóis ganharam os últimos quatro jogos por 1-0 e na pobre final com a Holanda receberam censuras muito semelhantes. Em 2010, essas irrelevâncias nunca poderiam ofuscar o mais importante, que visava fazer da Espanha a atual bandeira para a poesia e para o futebol libertário; se isso correspondia à verdade ou não, era um detalhe.O facto é que a Espanha sempre teve dias; umas vezes encanta mesmo, outras nem tanto. Onde nunca falha é a desencantar o adversário: com a final de ontem e o Mundial'2010, foram três golos sofridos em 13 jogos, parte deles contra as seleções mais fortes do mundo. É preciso recuar quarenta anos, até 1972, para encontrar um campeão europeu com apenas um golo sofrido. E nessa altura só se jogava meia-final e final.