Nestas alturas, fica bem dizer que foi a sorte, mas como não vai faltar quem o diga, vou pelo contrário, que é muito mais útil. Se os penáltis fossem decididos pela sorte, o espanhol Sergio Ramos não teria aprendido com a bola que enviou para o espaço sideral nas meias-finais da Liga dos Campeões deste ano. Em vez disso, esperou que fosse Rui Patrício o primeiro a sacar, como no velho Oeste, e alargou a baliza para um pontapé tranquilo. Visto que a sorte não tem forma nem cheiro, nem sequer um comité na UEFA que se possa constranger, falar nela é irrelevante e conduz a paradoxos suicidários, como aquele de considerarmos uma grande vitória a derrota trágica no Euro'2004, jogando em casa, contra um adversário medíocre e tendo à disposição uma equipa pronta a usar, à semelhança do que sucede agora com Espanha/Barcelona e Alemanha/Bayern.
À seleção portuguesa oferecem-se duas abordagens possíveis; ou se deslumbra com o facto de ter conseguido jogar de igual para igual com o campeão da Europa e do mundo, e manda fazer um jarrinho de porcelana com a inscrição para pôr ao lado das duas taças ganhas pelos sub-20 de Queiroz, ou se inquieta à procura da razão de não ter sido capaz de dar o golpe de misericórdia quando sentiu a Espanha - todos o sentimos - à mercê.
O pragmatismo de Paulo Bento voltou a sobressair ontem à noite, quando atirou, na conferência de Imprensa, que deste Europeu se retira a certeza (inquestionável) de que Portugal pode jogar em igualdade de circunstâncias contra qualquer adversário. Mas aposto que não lhes ganhará se voltar da Ucrânia convencido de que só precisa de comprar uma pata de coelho.