Não é que Portugal vá fazer de República Checa nas meias-finais - jogou demasiado bem e não há retorno para esse andamento -, mas a partir de agora muda tudo. Seja a Espanha ou a França o adversário, o Europeu entrará na fase do futebol microcirúrgico em que, por exemplo, as seis bolas portuguesas ao poste (quatro de Ronaldo) passam de troféus morais a ameaça estatística.
Deixa de ser tão importante o coração para valer a frieza, que talvez tenha sido a virtude em falta nas outras duas decisões jogadas pela Seleção neste século, a final com a Grécia, claro, mas sobretudo a semifinal perdida com a França há 12 anos. Uma França curiosamente equivalente à hegemonia espanhola que vivemos desde 2008. Ganhara o Mundial em 1998 e reinava sem contestação quando eliminou Portugal (2-1) para a seguir bater a Itália, na final; das duas vezes começando o jogo a perder, contra adversários que pretendiam jogar mais ou menos à checa.
Roger Lemerre, o selecionador, tinha uma grande vantagem, claro: o melhor jogador da Europa (Zidane), se calhar do mundo, pertencia aos quadros franceses. No dia 27, é irrelevante se o adversário é a Espanha ou a França, o melhor jogador não estará do lado de nenhum deles.
Até ao último poro esfoliado, até ao último esguicho de gel para o cabelo, até à última palpitação que o nome de Messi lhe provoca, Cristiano Ronaldo está inteirinho na seleção portuguesa. E na melhor forma de sempre.