David Lima: o velocista que quer roubar o recorde europeu a Obikwelu

David Lima: o velocista que quer roubar o recorde europeu a Obikwelu
André Ferrão

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Desde os tempos de Francis Obikwelu que Portugal não tinha nenhum atleta nos 100 e 200 metros de um Mundial. Pois este ano, em Londres, voltará a ter. David Lima já imita o seu amigo Obikwelu no copo de vinho que bebe à noite, nas vésperas das provas. E quer também o seu recorde europeu nos 100 metros.

David Lima é o melhor velocista português do ano nos 100 (10,05 segundos) e nos 200 metros (20,30 segundos), tendo a ambição de bater o recorde europeu na distância rainha dos sprints e que pertence ao compatriota Francis Obikwelu desde 2004, com 9,86 segundos. Emigrado em Inglaterra desde os seis anos de idade, o benfiquista passou de desconhecido a grande promessa da velocidade e quer deixar o seu nome na modalidade.

Como encara a primeira ida ao Mundial?
-Sinto-me relaxado, espero melhorar os meus tempos. Eu e o meu treinador estamos a treinar para atingir os mínimos e para os superar.

Sonha ser o melhor velocista português de todos os tempos?
-Claro. Devemos sempre sonhar alto. Sou muito amigo do Francis, ele sabe que é essa a minha intenção e apoia-me. O recorde é dele e é uma meta grande. Não vou pensar muito nisso. Temos de ser pacientes para chegar longe. Se continuar a melhorar, eventualmente, vou lá chegar. Mas agora tenho é de preparar a estreia no Mundial.

Como explica a sua melhoria tão grande nos últimos tempos?
-Houve mais consistência. Não era o melhor nos 100 metros e agora sou. Tenho de ser dedicado e competitivo. Aprendi quais são os meus erros e como os melhorar.

Qual foi o primeiro contacto com o atletismo?
-Comecei por fazer desportos de equipa, como futebol e basquetebol, mas rapidamente me chateei, porque não sobressaía. Decidi experimentar o atletismo, só na desportiva. Comecei nos saltos e acabei por gostar. O formato aqui em Inglaterra é diferente do de Portugal. Há mais provas e pude experimentar um pouco de tudo, até terem visto que tinha aptidão para a velocidade.

Vivendo desde os seis anos em Inglaterra e tendo pais guineenses, o que o levou a querer representar Portugal?
-Nunca me senti como inglês. O meu pai veio para Birmingham tirar o mestrado, fizemos vida aqui e acabei por estudar cá, mas eu e a minha mãe falámos sempre português em casa, para nunca perder a ligação a Portugal. No verão, vou sempre para Lisboa ou a Margem Sul. Quando comecei o desporto, com 17 anos, notei que tinha talento e soube logo que se um dia representasse um país seria Portugal. Quem me conhece sabe o quanto gosto de ser português. Sinto o hino como sendo meu.

Viaja muitas vezes para Portugal?
-Sim, mas agora só quase por causa do atletismo. Já quase não tenho férias, mas este ano vou a Portugal no final de agosto.

Começou a fazer-se notado em 2011. Lembra-se de como aconteceu?
-Em Portugal, temos um amigo de família a quem chamamos "primo", o Edivaldo Monteiro. Foi atleta do Sporting durante muitos anos e representou o país. Quando decidi que queria correr por Portugal, o meu pai encaminhou-me para o Edivaldo, que me inscreveu no Clube de Atletismo de Baixa da Banheira, na Margem Sul. Ele foi o meu guia neste percurso. Nesse ano, fui campeão nacional de sub-23 nos 200 metros e no seguinte, dei o salto para o Sporting.

Sendo já uma estrela da velocidade nacional, ainda se sente pouco conhecido dos portugueses?
-Sim, mas isso é normal. Posso ser só conhecido dentro da modalidade, por não fazer o calendário português, por ter feito vida em Inglaterra e estudar lá. Mas espero mudar isso com o tempo.

O seu primeiro grande treinador faleceu e fez uma época sozinho até ter conhecido o atual treinador, Linford Christie, o único britânico campeão europeu, mundial e olímpico nos 100 metros. Que recorda da fase em que perdeu o seu treinador?

-Foi difícil. Estava a acabar a faculdade e tinha vindo de um estágio com a Seleção no Algarve. Quando voltei a Birmingham, o meu treinador disse-me que ia deixar de dar treino porque tinha cancro e estava em fase terminal. Em agosto desse ano faleceu, mas deixou-nos o plano de treino inteiro para a época seguinte. Usei-o e treinei sozinho. Muitos recorreram a outros treinadores, mas eu não. Era mais complicado para mim, que ainda estava a acabar a faculdade. Foi uma época difícil e, apesar de ter ido ao Europeu, não me sentia bem nem com força. Foi aí que apareceu o Linford Christie.

Como chegou até ao Linford Christie?

-Tenho um bom amigo que fez 400 metros pela Grã-Bretanha. Treinávamos juntos em Birmingham, mas ele foi para Londres três anos antes da morte do meu treinador. Quando soube que procurava outro treinador, ligou-me e disse que podia treinar com ele. Fui até Londres para conhecer o grupo. A transição não foi fácil, mas não estou arrependido.

Como é que ele ajudou no seu desempenho?

-O treino que agora faço é mais à antiga. É muito intenso, com mais carga. Na época de verão, reduzimos a distância, mas corremos mais rápido. Funciona. Também treino muito com uma atleta de 400 metros, apesar de ser velocista curto, e isso dá-me mais confiança. E, quando tens um treinador que já ganhou tudo, sentes que podes confiar nele. Quando vamos para as provas, ele dá-nos apoio e brinca connosco. Para além do físico, o Linford também nos treina a mente.

Tem algum ritual antes das provas?
-Há uma coisa... Não que seja ritual, porque se não fizer, não há problema. Gosto de comer bem na noite anterior à prova e de tomar um copo de vinho tinto para relaxar [ndr: Francis Obikwelu tem também o mesmo hábito como já confessou em entrevista a O JOGO].

Vive sozinho em Londres?
-É muito caro viver sozinho. Divido a casa com uma amiga que é dona de um restaurante e com um amigo que é técnico de futebol.

Como são os seus dias?
-Sou personal trainer para ser mais flexível. Quando não estou a treinar, estou a dar treino. Quando não estou a fazer nenhum dos dois, gosto de ir a museus, experimentar restaurantes, conhecer novos sítios ou apenas descansar.

Gostava de viver em Portugal?
-Enquanto estiver no atletismo, dificilmente sairei de Inglaterra, mas quando deixar, quando tiver outras preocupações, como família, vejo em Lisboa uma maior qualidade de vida.