Promessas por cumprir, mas há quem se ria

Promessas por cumprir, mas há quem se ria
João Sanches

Benfica e FC Porto anularam-se no "clássico do título". Pior para os visitantes, que não tiveram rasgo nem coragem à medida das necessidades para afrontar o líder, que tratou o empate por vitória e vê o bicampeonato mais perto

Para lá de uma desilusão, o primeiro terço do clássico mais aguardado da Liga foi um fracasso. Dominadas pelo nervosismo, as equipas de Benfica e FC Porto trataram mal a bola e as canelas contrárias, forçando o árbitro a apitar demasiadas vezes e a tirar ritmo à partida. De um lado e do outro, o temor de escorregar e ficar por baixo do adversário superiorizou-se à vontade de destravar as movimentações e partir para cima, mas, neste pedaço do duelo, o conjunto portista, necessitado de vencer para, no pior dos cenários, empatar as contas do título, foi o mais penalizado pela falta de coragem e atrevimento depois do desastre de Munique, deitando fora uma parte gorda da oportunidade que jogava no estádio do rival. Quando quis ir mais longe, foi ineficaz junto da baliza e na armação e variação dos ataques. Pagou tudo isso com o zero a zero final, claramente uma... vitória para os comandados de Jorge Jesus, que, embora puxando o travão de mão nas substituições, geriram, aguentaram, fecharam espaços e procuraram transformar perdas de bola do rival em contragolpes desequilibrantes, aspeto em que estiveram mal. Em todo o caso, o empate soube-lhes a mel: precisam "apenas" de ganhar dois jogos em casa e um fora para celebrarem o bicampeonato.

O despertador do clássico estava escondido no bolso do finalizador e também construtor Jackson. Tocou aos 34 minutos quando, após subida de Danilo pela direita, o comandante dos goleadores do campeonato ficou a centímetros de fazer avançar os azuis e brancos no marcador. Não acertou nas redes, mas deu o verdadeiro pontapé de saída na discussão, convencendo Julen Lopetegui a trocar peças no segundo tempo (Rúben Neves por Herrera logo ao intervalo, Brahimi por Quaresma e Evandro por Hernâni), com o sentido de elevar a ambição e a fantasia - ou probabilidade de rasgo - no último terço. As alterações animaram a equipa, deram-lhe profundidade, mas não adicionaram soluções para furar a organização e a consistência tática dos encarnados sobre o corredor central, obrigando os portistas, em recurso (ou desespero), ao passe longo (ou tentativa de) para explorar as costas dos centrais e dos laterais. E assim terminaram o jogo, com o treinador a esbracejar no banco...

Sem o motor do flanco direito - Salvio chumbou no derradeiro teste físico, ontem de manhã -, o Benfica, por manifesta falta de confiança de Jorge Jesus na capacidade tática de Ola John, apresentou-se com um remendo no onze: Talisca começou na esquerda, depois viajou para a direita, onde Alex Sandro passou por ele como quis, e regressou ao corredor contrário após as correções escutadas ao intervalo. A atacar, a equipa encarnada acusou a ausência do argentino - não teve um substituto tão perfurante -, mas a defender foi-se safando, uma vez que o FC Porto só nos últimos minutos da etapa inicial insistiu na exploração da debilidade.

Ao traumatismo na Champions, Lopetegui respondeu com gelo. Começando pela baliza, onde o traquejado (e hábil com os pés) Helton reapareceu no lugar de Fabiano, prosseguindo no centro do meio-campo, com Rúben Neves e Evandro a fazerem companhia a Casemiro, e terminando nos flancos, com Óliver e Brahimi nos apoios diagonais a Jackson. Rúben Neves foi o que menos justificou a chamada, limitando-se a chocar com Pizzi ou Samaris, esquecendo-se de atacar, tarefa que Óliver procurou compensar.

Com três substituições dos 46 aos 64 minutos, Lopetegui pôs a equipa a pisar mais à frente, mas o Benfica, com a defesa e o meio-campo bem juntos, secundados pela pressão dos avançados Lima e Jonas, bloqueou caminhos e, refrescado por Fejsa e André Almeida, um trinco e um defesa polivalente, nos lugares de Talisca e Pizzi, reforçou a impermeabilidade. E a verdade é que, num livre lateral de Gaitán, quase ganhava o encontro e antecipava a festa do bicampeonato, mas Fejsa chutou a possibilidade por cima da trave.