Arte trick servido numa bandeja

Três golos de Tello tirados a papel químico traduzem o domínio avassalador do FC Porto num clássico de sentido único que deixa o Sporting a lamber as feridas e a fazer contas

Antes de mais nada, as notícias: o FC Porto venceu de forma categórica o primeiro clássico da temporada, encurtou a distância para o Benfica para quatro pontos e aumentou a diferença para o Sporting para oito, conseguindo não só reduzir a discussão pelo título a um diálogo a dois com os encarnados, mas garantindo uma margem de conforto muito significativa no que diz respeito ao acesso direto à próxima edição da Liga dos Campeões. Para o Sporting, sobrou o reverso da medalha: os leões perderam o primeiro clássico da temporada de forma confrangedora, viram os dois rivais históricos escapar para lá do que é razoável imaginar como recuperável e têm o Braga a morder-lhes os calcanhares a apenas um ponto de distância.

Mais complicado será perceber exatamente até que ponto foi mais decisivo para este desfecho que o FC Porto tivesse feito um dos melhores jogos da temporada ou que o Sporting tivesse assinado uma das exibições menos conseguidas, embora o mais provável é que as duas coisas estejam ligadas. Certo é que não será fácil encontrar registo de um clássico tão monocórdico como o de ontem, no Dragão. De tal forma que Fabiano chegou ao final do jogo sem ter realizado uma única defesa que mereça esse nome, tal como o Sporting terminou a partida sem conseguir reclamar uma única oportunidade de golo capaz de contrariar o domínio asfixiante que a equipa de Julen Lopetegui impôs praticamente desde o início.

O praticamente justifica-se aqui pelo nervosismo que marcou a primeira meia hora do jogo e que explica a multiplicação de passes falhados e de erros não forçados de parte a parte, que foi mastigando o jogo a meio-campo até ameaçar torná-lo intragável. De resto, foi por aí que a partida se definiu, o que não quer dizer que tenha sido por aí que se decidiu. Explicações: talvez fosse o desgaste físico e psicológico acumulado na eliminatória perdida para o Wolfsburgo a meio da semana ou talvez tenha sido a pressão extra garantida por Evandro, o trunfo que Lopetegui tirou da manga para atormentar William e companhia no jogo de ontem, mas por uma vez esta temporada o Sporting perdeu a batalha do miolo para o FC Porto. O que explica o tal domínio exercido pelos portistas ou a absoluta incapacidade dos leões para chegarem à área de Fabiano, mas não explica o resto, concretamente os golos.

Ora, é justo recordar que o Sporting já tinha conseguido empatar e ganhar ao FC Porto esta época sem Jefferson na defesa, mas é impossível olhar para os três golos de Tello e não perguntar se a experiência do lateral brasileiro não teria feito alguma diferença. Talvez não no lance do primeiro golo, porque contra o génio não há argumentos. O toque de calcanhar de Jackson é o tipo de coisa que desmonta qualquer defesa, tornando o golo numa inevitabilidade. Mas ver o lance repetido três vezes seguidas, com Tello a explorar o espaço nas costas de Jonathan para se isolar na cara de Rui Patrício até acumular o primeiro hat trick com a camisola do FC Porto justifica a dúvida: Jefferson não seria mais útil a jogar do que a treinar à parte na Academia? Por outro lado, para sermos completamente justos, a intensidade que o FC Porto colocou no jogo, a forma como se superiorizou em todas zonas do campo, especialmente no início da segunda parte, precisamente quando se esperava pela reação dos leões à desvantagem, foi suficiente para tornar irrelevante qualquer resistência ao avolumar do resultado que podia ter sido bastante mais expressivo. Se a goleada do Benfica ao Estoril foi uma demonstração de força dos encarnados, a forma como o FC Porto vergou o Sporting garante-nos que a luta pelo título vai durar até ao último assalto. E essa é uma grande notícia para o campeonato.