
Adelino Meireles / Global Imagens
Jardim chegou a viver dias complicados no Mónaco e foi alvo de críticas. Os jornalistas e treinadores franceses que O JOGO foi ouvir explicam como tudo mudou. Este sábado amealhou mais uma vitória
Leonardo Jardim é um dos treinadores em foco em França e na Europa. Nem sempre foi assim desde que chegou ao Mónaco, em 2014, para substituir Claudio Ranieri. O JOGO conversou com dois jornalistas e dois treinadores franceses, atualmente comentadores, sobre as razões das críticas iniciais e do atual reconhecimento que o madeirense granjeou, e sobram elogios ao percurso do líder dos monegascos pela sua coerência, personalidade e competência indiscutível.
As dificuldades iniciais que Jardim sentiu e um futebol que muitos depressa catalogaram de defensivo alimentaram críticas, esquecendo até que o clube mudou de paradigma e projeto. Depois de fortes investimentos no ano anterior, nomeadamente em Falcao, James e João Moutinho, apenas o último seguiu no clube em 2014/15. Houve desinvestimento e a ordem foi de-senvolver e apostar em jovens. Pedia-se tempo e paciência.
Hoje, os resultados estão à vista: com um plantel onde existe uma mescla de juventude e alguma experiência, o Mónaco lidera a Ligue 1, é finalista da Taça da Liga e ainda disputa a Champions e a Taça de França. Tem ainda o segundo melhor ataque da Europa, com 121 golos em 45 jogos.
Régis Testelin, jornalista do "L"Équipe" que acompanha o Mónaco, admite que o técnico português pagou ao início o preço de "prometer um futebol ofensivo" que não pôde concretizar. Lembra ainda as "dificuldades iniciais de gestão", mas destaca como fez sobressair rapidamente jovens: "Fez de Bernardo Silva um dos melhores jogadores da Europa, Fabinho explodiu com ele e Martial foi vendido por 50 Meuro, mais 30 Meuro de bónus." O repórter admite: "Vi como foi recebido e é claro que podemos falar de vingança. Além disso, nunca foi eleito o melhor treinador da Ligue 1. Mas este ano o título será dele."
Smail Bouabdellah, jornalista no canal BeIN Sports, entre o reconhecimento de que "em França os estrangeiros são recebidos com desconfiança", compara o madeirense ao Special One. "Hoje é fácil dizer isto porque há resultados, mas se observarmos os métodos de Jardim e de Mourinho, vemos que são diferentes - este último é mais defensivo."
Rolland Courbis, treinador e comentador na RMC, considera que muito do que se disse sobre a forma de jogar de Jardim era "injusto" e destaca: "Tudo o que ele faz é coerente e faz quase tudo na perfeição." E apesar da derrota (5-3) na 1.ª mão, acrescenta: "A equipa é competitiva e o Mónaco ainda se pode qualificar contra o Man. City e chegar longe na Champions."
Por sua vez, Elie Baup, treinador e comentador, entre elogios, destaca: "Os céticos perceberam que a sua abordagem é pragmática e tem em conta os jogadores que tem à disposição."
Inquérito
1 Leonardo Jardim foi recebido em França com alguma desconfiança. Como avalia isso?
2 Considera que este ano lhe tem sido feita justiça e que ele é devidamente reconhecido?
Elie Baup
Treinador, comentador na BeIN
1 Ele chegou para um projeto que sofreu mudanças e teve de se adaptar. Progressivamente tornou-se mais defensivo, o que lhe valeu críticas. Foi catalogado como alguém que só pensava em recuperar a bola, mas este ano, com a equipa que tem, é um dos melhores ataques da Europa. Os céticos perceberam que a sua abordagem é pragmática e depende dos jogadores.
2 Penso que é valorizado e o seu trabalho reconhecido. Tem jogadores de qualidade e faz uma boa gestão. Teve grande sucesso com algumas apostas, como a conversão de Fabinho de lateral a médio. É um treinador com uma visão e uma boa imagem. A equipa tem progredido desde que ele chegou e é sem dúvida um bom treinador.
Rolland Courbis
Treinador, comentador na rádio RMC
1 As críticas ao seu jogo defensivo foram exageradas, porque o objetivo de qualquer treinador é o resultado. No primeiro ano, a meu ver, tinha uma equipa desequilibrada e escolheu a prudência. Teve de se integrar e adaptar ao contexto da Ligue 1. Jardim é um treinador muito bom, com grande paixão pelo futebol e que é meticuloso nos detalhes.
2 Chegou ao Mónaco como uma aposta dos dirigentes para construir uma equipa competitiva e é isso que acontece atualmente. Criou um grupo com qualidade, juntando jovens a jogadores mais experientes. É um dos melhores técnicos da Ligue 1 e não vejo motivos para não apreciarmos o seu trabalho. Tudo o que faz é coerente.
Régis Testelin
Jornalista do "L"Équipe" no Mónaco
1 Não foi inicialmente muito bem recebido. O seu antecessor, Ranieri, era muito popular. O Mónaco também não explicou bem a contratação de Jardim. Disseram que o projeto mudara e Jardim prometeu um futebol ofensivo. Mas com duas derrotas nas duas primeiras jornadas, no terceiro jogo os princípios foram quebrados devido à crise. A transformação numa equipa defensiva foi recompensada com resultados, mas as pessoas não entenderam.
2 Mostrou grande personalidade e respeitou a linha do projeto do Mónaco. Apostou nos jovens e fez de Bernardo Silva um dos melhores jogadores da Europa. Era cada vez mais convincente, mas tinha a etiqueta de defensivo, que este ano desapareceu. A forma de olhar para ele mudou totalmente.
Smail Bouabdellah
Jornalista da BeIN Sports
1 Foi um pouco criticado por ser estrangeiro, aconteceu o mesmo com Ancelotti quando estava no PSG. Não foram só os jornalistas a criticar, também comentadores, treinadores... Penso que o seu plano inicial foi justamente criticado, embora, em retrospetiva, se possa entender que a sua abordagem fosse a pensar no longo prazo. Teve a sorte de os dirigentes do Mónaco terem confiado nele mesmo nos momentos difíceis; outros clubes talvez não o tivessem feito. Agora recolhe os frutos do seu trabalho.
2 Algumas das mesmas pessoas que o massacraram no início são as que hoje reconhecem os seus méritos. Não penso que ele veja isso como uma vingança. Julgo que teve desde o início o seu plano. Aprecio a sua obra, revela imenso trabalho.
