Rattin, ao vivo e a cores

Carlos Pereira Santos

No campeonato que fez de Eusébio uma estrela mundial, um argentino tornou-se tristemente célebre, ao levar a FIFA a introduzir os cartões amarelo e vermelho

O Mundial de Inglaterra trouxe uma série de novidades. A primeira está relacionada com as transmissões televisivas que, sem serem novidade, porque já anteriormente acontecera, deixaram o preto e branco e vestiram-se de cores. Houve tanto pasmo por este acontecimento, como pelo aparecimento de alguns craques, embora Eusébio, o maior de todos neste torneio, não fosse propriamente uma novidade para o mundo, uma vez que já brilhava no Benfica campeão europeu. E de Eusébio iremos falar, pela classe, pela potência do remate, pela sua genialidade. Uma figura que ficou na memória dos ingleses pelas melhores razões, em contraponto com um outro futebolista, Antonjo Ubaldo Rattin... A uma atitude deste jogador argentino se deve a introdução no futebol dos cartões amarelos e vermelhos.

Rattin - hoje com 76 anos - está entre os 10 jogadores mais agressivos de sempre, mas pode haver aqui alguma má vontade britânica. O certo é que o episódio que protagonizou levou a FIFA a tomar uma medida que se mantém até hoje. A cena aconteceu no dia 23 de Julho, quando a Inglaterra e a Argentina se defrontaram nos quartos de final. O árbitro foi o alemão Rudolf Kreitlein, que não perdoou uma entrada feia de Rattin e deu-lhe ordem de expulsão. O futebolista não entendeu, ou fez que não, disse que não percebeu o que se estava a passar, e como não falava inglês exigiu a presença de um intérprete em campo. Ninguém conseguiu demovê-lo a sair a bem; só mesmo com a intervenção da polícia é que Rattin deixou o relvado; no caminho para os balneários ainda atirou ao chão uma bandeira inglesa. Alf Ramsey, selecionador inglês, ficou tão perturbado com a cena que impediu que, no final, os seus jogadores trocassem as camisolas "com aqueles animais", assim classificou os argentinos. A FIFA também ficou perturbada e instituiu, no congresso seguinte, a utilização do cartão amarelo e do vermelho para punir as (más) ações disciplinares... sem precisar de intérprete.

Quem sorriu sempre no meio de algumas confusões foi Willie, o mascote do campeonato, ou melhor, o primeiro mascote num campeonato do Mundo, o único ganho pela Inglaterra até hoje.

Um torneio cheio de novidades, enquanto em Portugal acontecia algo de fantástico: pelo novo código de Trabalho, as mulheres passaram a poder receber diretamente a sua remuneração. Por causa destas e doutras é que o Estado Novo caiu de velho...