Árbitros em fuga das associações para subirem de categoria

Árbitros em fuga das associações para subirem de categoria
Pedro Rocha

Só a AF Porto já viu 20 árbitros escaparem para outras associações a fim de subirem de categoria, por culpa das quotas introduzidas por Vítor Pereira

O formato de promoção de árbitros concebido por Vítor Pereira, quando era presidente do Conselho de Arbitragem da FPF, e que supostamente defendia a igualdade de oportunidades, tornou-se num embaraço, alvo de críticas das principais associações de futebol do país e de fintas por parte dos homens do apito. Em nome da equidade, o ex-presidente do CA introduziu um sistema de ascensão por quotas há cinco épocas e as principais associações do país depressa perceberam que sairiam claramente a perder. Tapados pelos limites máximos estabelecidos para cada categoria, vários árbitros tornearam a lei trocando de associação, tendo sido a AF Porto uma das mais afetadas, ao perder 20 árbitros para associações mais pequenas (Vila Real, Viseu, Aveiro, Terceira e Viana do Castelo).

O descontentamento tem subido de tom e o fim deste processo de seleção, amenizado esta época com o fim das quotas para árbitros que aspiram à primeira categoria (mantendo-se a dos juízes de segunda categoria), será proposto pelos CA das principais associações de futebol num fórum de arbitragem promovido pela FPF em Beja, no próximo mês, e para o qual também serão convidados a APAF e os sindicatos de treinadores e jogadores.

Cunha Antunes, presidente do Conselho de Arbitragem da AF Braga, dá conta de um descontentamento generalizado e acredita que serão dados passos importantes nesse fórum. "Há todo o interesse em acabar rapidamente com o atual sistema de promoções, porque o regulamento de arbitragem tem de ser aprovado antes de 1 de julho", precisa. O êxodo de árbitros ainda não atingiu a AF Braga, mas o dirigente tem a noção de que "em breve" tudo mudará. "Ainda não atingimos o limite das nossas quotas, mas andamos próximos. Não faz sentido que árbitros do nosso distrito bem classificados tenham de procurar outras associações para poderem alcançar os quadros nacionais só porque são atingidas as quotas máximas", comenta. Há quatro anos, João Matos, então pertencente à AF Porto, não teve alternativa. Terminou o estágio C3 Avançado (etapa para se tornar árbitro de segunda categoria) com boa classificação, mas, por excesso de contingente, só subiria de nível ao mudar-se para a AF Viana do Castelo, sendo atualmente árbitro de primeira categoria, habilitado a dirigir jogos do principal campeonato português.

Trocando de residência, tudo se torna mais fácil. É um processo rápido e não passa de uma mera formalidade, pois são poucos os árbitros que na verdade chegam a trocar de morada. As carreiras estão em primeiro lugar e Carlos Carvalho, o presidente do Conselho de Arbitragem da AF Porto, até assume que nunca colocou entraves às saídas. "Fomos a associação que mais árbitros perdeu, mas dão devemos prejudicá-los. Sou da opinião de que devem subir os melhores, sejam de que associação forem. O João Sousa, por exemplo, era da AF Porto e foi para Bragança, tornando-se árbitro de segunda categoria. Se não tivesse pedido transferência, não subia. Estava nos distritais. E se não tivesse feito isso, o que acontecia? Se calhar, até tinha desistido da arbitragem", estima o responsável da associação portuense, categórico em relação ao desejo de acabar com as quotas. "Havendo fixação de árbitros, não sobem os melhores. Não importa de onde são, importa é que ficam pelo caminho muitos dos melhores", insiste.