Prioridade de Alepo é "reconstruir a cabeça" dos filhos da guerra - Padre Firas Lutfi

Prioridade de Alepo é "reconstruir a cabeça" dos filhos da guerra - Padre Firas Lutfi
Lusa

A cidade de Alepo, sem guerra desde a saída do Estado Islâmico em dezembro, tem de começar "a reconstruir a cabeça" de milhares de crianças órfãs, traumatizadas e "filhas da guerra", disse à Lusa o padre sírio Firas Lutfi.

"A situação agora é que não há bombas, nem ataques, nem bombardeamentos. Mas é muito difícil. (...) O mais importante agora é saber como vamos reconstruir não as ruínas, as pedras, mas especialmente os seres humanos. Após seis anos estão completamente traumatizados", afirmou à agência Lusa o padre Firas Lutfi, vice-pároco da Igreja de São Francisco de Assis de Alepo.

Frade franciscano da Custódia da Terra Santa, Firas Lutfi nasceu em Hama (centro da Síria), entre Damasco e Alepo, cidade na qual está colocado desde 2004.

"Alepo está muito diferente da cidade que conheci [em 2004], quando era o maior centro comercial e económico [da Síria]. Agora está completamente destruída pela guerra", salientou o frade franciscano.

Ainda assim, "a situação agora está bem melhor, com a saída dos jihadistas" do Estado Islâmico, "que ocupavam uma grande parte da cidade, especialmente a cidade velha".

O padre está em Portugal pela primeira vez, para participar na Peregrinação Internacional em Fátima, por motivo do centenário das Aparições. Para chegar a Fátima fez sete horas de carro de Alepo até ao Líbano, depois apanhou um voo para Istambul (na Turquia) e de lá mais de 10 horas até chegar a Lisboa.

Além de vice-pároco da Igreja Latina (como também é conhecida a igreja de São Francisco em Alepo), Firas Lutfi é Superior do Convento de Santo António -- Colégio da Terra Santa na cidade síria.

A principal preocupação dos sírios agora, reiterou Firas Lutfi, é começar de novo, tentando esquecer a raiva que os assaltava no passado.

"Durante a guerra ouvi muitos civis a dizer: 'Porque é que a comunidade internacional abandona os cristãos, porque abandona os sírios? Como é que permite esta guerra horrível?' Uma guerra de interesses económicos e de alianças?", recordou o padre.

Mas agora o convite dos sírios à comunidade internacional é para que venham e ajudem a reconstruir.

"As crianças que nasceram há seis anos são todas filhas da guerra. (...) Nos últimos seis anos perderam a sua alegria e a possibilidade de brincarem num local seguro", afirmou Firas Lutfi. A ajuda que pede é, essencialmente, para estes miúdos, para que voltem a "tomar conta dos seus sonhos".

O padre diz que as Nações Unidas continuam a considerar Alepo como "a cidade mais perigosa do mundo", o que também contribui para tornar escassos os meios para ajudar crianças e idosos.

"Há crianças que são absolutamente deixadas a si mesmas, porque não têm pais. Um ou ambos os pais morreram na guerra. Nós temos milhares de casos destes e não temos organizações que tomem conta deles. Há centenas ou milhares de campos de refugiados, mas não podemos cuidar deles", revelou.

Em dezembro de 2016, as tropas do governo sírio retomaram Alepo aos grupos rebeldes que a ocupavam. Na mesma altura, os jihadistas do Estado Islâmico que também estavam na cidade saíram também.

A guerra na Síria -- entre governo sírio e rebeldes e depois contra os jihadistas do Estado Islâmico -- começou em 2011 e já causou mais de 330 mil mortos, além de milhões de deslocados e refugiados.