Emails anónimos numa noite de Verão

Emails anónimos numa noite de Verão

Um texto de José Eduardo Simões.

Numa época em que os emails anónimos abundam, com IP's difíceis de seguir e mensagens encriptadas, recebi o texto que a seguir transcrevo, obviamente anónimo e reencaminhado também sem deixar rasto visível, em que qualquer semelhança com a realidade não passará de feliz ou infeliz coincidência, pelo que não pode ser levado a sério. Reza assim a prosa.

"Caro Frank:

Daqui da Caparica, ou de outro lado qualquer onde o Verão nos tenha trazido noites amenas, quero sob o manto do anonimato felicitar-te por finalmente veres o teu talento natural reconhecido com direito às primeiras páginas da nossa comunicação social. Conseguiste mesmo!

Confesso humildemente que nunca pensei que tal fosse possível, embora agora me recorde que, poucos dias antes da Douta Sentença do Dr. Ricardo Costa (o do Apito Amarelo, cor definida por via do problema de daltonismo do insigne jurista), já tu brandias na rua e mostravas a quem te quisesse dar atenção, fotocópias dessa sublime Sentença.

E dizias que conhecias mais gente que tinha tido acesso à decisão por via de "ricostaleaks", antes de a decisão ser decidida e tornada pública, pessoal com quem já te relacionavas ou de quem te tentavas aproximar a pensar num futuro com segurança mas sem seguros. Estavas no bom caminho com anos de antecipação...

Caminho que foste percorrendo com calma sem nunca perder a esperança em dias melhores e num lugar ao sol. Até que foste bafejado pela entrada no Conselho de Arbitragem e, qual cereja no topo do bolo, com a responsabilidade de classificar árbitros, tu que nunca foste árbitro (a não ser de andebol, cujas leis talvez pensasses serem semelhantes às do futebol, sobretudo quando às coisas dos grandes se referem).

Esse momento chave e os cinco anos que lá passaste dão-te crédito total, pois deixaste de tratar de seguros de vida para passar a ser beneficiário de um seguro de vida para uma vida com saúde.

De facto, relembro a forma como bem conseguiste separar o trigo do joio na arbitragem, segundo as orientações que te eram dadas anonimamente e que implementavas como verdadeiro e fiel coronel. E assim foste dando ou corrigindo notas, classificando pior e mesmo punindo com descida de divisão quem não entendesse bem as regras do velho/novo jogo que se joga fora das quatro linhas, mas que tem influência directa dentro delas.

Esse novo velho jogo que sempre se praticou inicia-se quando o clube de cor dominante conquista e logo amplia o seu poder através da rede que tece com gente disponível em lugares-chave, e logo trata de colocar fora do tabuleiro de xadrez os peões (ou mexilhões) que são os clubes que preservam a sua independência e não gostam de entrar em esquemas de dependência ou de favores.

Mas tu estiveste do lado certo e julgo que não te tira o sono o facto de haver clubes que possam ter descido de divisão, outros permanecido e outros terem subido (ou sido campeões) não por verdadeiro mérito desportivo, mas como consequência das regras que tão bem soubeste interpretar e pôr em prática. Que se lixe, não passam de danos colaterais...

De mestre foi o golpe nas costas do Vítor Pereira, aquando da final da Taça de Portugal, com direito a tirar dois coelhos na cartola. Jogada de mestre, embora também tenhas passado à situação de dano colateral, porque foste excluído deste novo Conselho de Arbitragem.

Nada que te preocupasse, pois bastou insinuares divulgar umas coisitas que sabias para te garantires, agora na nova situação. E assim lá conseguiste que pródigos filhos de pais dirigentes importantes lá colocassem na Loja o teu problema: o silêncio pelo futuro garantido.

Nem mais! E assim de técnico de seguros lá foste alcandorado a administrador de uma empresa municipal da câmara em que o presidente usa o vestuário apropriado. Que importa que detractores que não conhecem os teus méritos gritem? O que interessa é que o lugar já é teu. E outros antes de ti beneficiaram do mesmo, por isso...

Estás pois de parabéns. E mesmo que, por azar da vida e da política, o teu lugar seja ameaçado, não esqueças: o teu silêncio é de ouro e para alguns ainda é mais valioso!

Recebe um abraço caloroso de quem, anónimo, não inveja o teu percurso".