A esquiadora portuguesa que fez história e vive longe da neve

A esquiadora portuguesa que fez história e vive longe da neve
Ana Proença

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Entrou em pânico quando chegou ao Mundial e viu o gelo da pista, que nunca experimentara sequer em treinos. Catarina Carvalho é tricampeã nacional de esqui alpino, mas passa a maior parte do ano longe da neve, compensando com treinos no ginásio

Catarina Carvalho, de 20 anos, cresceu nas Caldas da Rainha, de onde é natural, e vive em Lisboa, onde está a estudar Ciências da Comunicação. Em fevereiro tornou-se na primeira portuguesa a marcar presença numa fase final de um mundial de esqui alpino. Ficou num modesto 83º lugar na prova de Slalom Gigante, mas já ninguém lhe tira o lugar na história dos desportos de inverno em Portugal. Catarina Carvalho, que gostava de vir a trabalhar em televisão, é a simpatia e a simplicidade em pessoa, tendo levado os seus esquis até ao Estádio Universitário de Lisboa para uma sessão fotográfica sem neve. Como é sem neve a sua vida quase todo o ano.

Como se faz alta competição em esqui alpino morando em Lisboa?

Com muito trabalho no ginásio. Tento compensar as eventuais falhas técnicas com a preparação física.

Como é o seu programa de treinos?

Na época de provas, de outubro a março, vou três a quatro vezes por semana ao ginásio e faço alguns treinos com um Personal Trainer. Ele ajuda-me com exercícios específicos, tento simular o que faço no esqui.

E quando treina na neve?

Por norma vou treinar umas cinco vezes por ano à Serra Nevada. Está lá o meu treinador, que é espanhol, o Nacho. Felizmente o meu pai pode pagar.

Acaba por fazer mais ginásio do que treinar na neve...

É verdade [risos]. Acho o ginásio muito aborrecido, mas tem de ser. Apesar de também detestar frio - os melhores dias para esquiar são aqueles de sol, em que podemos andar de mangas curtas - adoro esquiar. O que mais gosto é a sensação de liberdade, sou eu que traço o meu caminho, que escolho para onde vou e a que velocidade. E isso é espetacular.

Como é que apareceu o esqui na sua vida?

Desde os dois anos que os meus pais levavam-me a esquiar nas férias. Comecei a competir aos oito anos. Os meus pais viram que eu me safava e acharam piada inscrever-me numa prova. Fiquei logo em primeiro. Aos poucos fui ganhando o gosto e a vontade de ganhar. Até que a federação também começou a pegar em mim.

E quando deu conta estava a ser chamada para o Mundial...

[risos] Fui chamada com base no meu desempenho nacional e nos pontos FIS, da federação internacional. Quando chegámos lá - eu e o Arthur Hanse, o Samuel Almeida e o Ricardo Brancal - tivemos uma prova de apuramento. Tinham-me dito para não ter esperança, mas fiquei entre os 50 primeiros e passei à final, tal como o Arthur. Foi a primeira vez que atletas portugueses conseguiram apurar-se para uma final de um mundial.

Como se sentiu a fazer história?

É muito peso sobre os ombros, nem queria acreditar que tinha conseguido.

E como foi estar lá?

Só em pista estavam 800 voluntários, é tudo de uma dimensão gigantesca. Foi incrível ver os meus ídolos ao vivo, mas também foram muitos os nervos. A dificuldade era imensa, as pistas são de gelo e tanto em Portugal como em Espanha esquiamos na neve. Os melhores do mundo têm técnica para esquiar em gelo. Quando fui fazer o reconhecimento da pista, comecei a chorar. O meu pai pagou a estadia ao meu treinador, para me acompanhar, sabiam que eu ia entrar em pânico quando lá chegasse.

Mas nunca tinha treinado numa pista daquelas?

Nunca. Era completamente novo e eu estava muito assustada. Doía-me a barriga, não queria comer. Quando passei a meta, no apuramento, tive uma descarga emocional, chorei compulsivamente. Depois, na final, já ia super à vontade. São milhares de pessoas a assistir, a alegria foi tanta quando passei a meta que parecia que tinha ficado em primeiro lugar. Olhei para o ecrã gigante e estava o meu pai a ser entrevistado e a dizer-me adeus. Foi incrível.

Nunca ponderou ir viver para fora?

Não. Cresci muito apegada à família e amigos e, além disso, acho que estou demasiado crescida para investir nisso a sério. Sempre levei o esqui na desportiva, é um complemento.

O YouTube está cheio de vídeos com quedas e acidentes de esqui. Costuma ir ver?

Nem pensar. Sou supermedrosa. Se vir isso, não quero mais esquiar. As pistas metem muito respeito. Pelo gelo, não pela inclinação. É olhar e rezar para que nada me aconteça.

SAIBA QUE

Catarina Carvalho já perdeu a conta aos títulos nacionais conquistados nas provas de Slalom e Slalom Gigante. Sabe que os últimos três foram seus. E também que fui campeã universitária pela segunda vez consecutiva. "Até cerca dos 12 anos, há muita concorrência, mas no meu escalão somos três ou quatro raparigas, reconhece a esquiadora de 20 anos que, apesar das dificuldades inerentes ao clima, vê muita evolução nos desportos de inverno em Portugal. "Vejo cada vez mais jovens a esquiar. Recebo mensagens no Facebook de miúdos que já querem imitar os mais velhos", diz Catarina Carvalho, que é fã da americana Lindsey Vonn.

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