
LUIS MANUEL NEVES
Marco Ferreira disse em tribunal que a sua vida mudou quando soube que o seu nome constava numa lista com dados privados de árbitros e respetivos familiares.
O ex-árbitro Marco Ferreira confessou esta quarta-feira que alterou as rotinas diárias a partir do momento em que soube que o seu nome constava de uma lista que incluía pormenores privados da vida de árbitros e observadores do futebol profissional.
"O medo passou a imperar no meu meio familiar", declarou Marco Ferreira através de uma videoconferência integrada numa sessão do julgamento de Paulo Pereira Cristóvão relativo ao Caso Cardinal, a decorrer no Campus da Justiça, em Lisboa.
"Senti-me condicionado. Tive que alterar percursos e rotinas", acrescentou Marco Ferreira sobre o momento em que teve conhecimento que o seu nome constava dessa lista com dados pessoais de árbitros e observadores, supostamente "encontrada numa base de dados do Sporting e de um dirigente do clube" - Paulo Pereira Cristóvão, no caso.
Marco Ferreira afirmou que não teve "acesso às listagens", uma vez que, quando pretendeu consultá-las, as mesmas "já não se encontravam online". De qualquer forma, garantiu ter sido informado por um elemento da APAF (Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol) que as mesmas conteriam dados privados "de todos os árbitros e observadores". A dada altura, conforme assegurou, sentiu "medo de que esses dados fossem publicados".
Agora no desemprego, o ex-árbitro contou ainda que nessa altura chegou a "receber um mail com ameaças" que de imediato reencaminhou "para a Polícia Judiciária". Um elemento desta entidade disse-lhe que "seria impossível saber qual o emissor" da mensagem, pelo que não voltou a dar importância à mesma.
Neste contexto, Marco Ferreira apresentou um pedido de indemnização pelos prejuízos que alegadamente lhe foram causados pela situação citada. Nas mesmas circunstâncias, também nesta sessão de hoje foi ouvido Sérgio Serrão, que na altura era árbitro assistente, assim como Manuel Faria, este integrado num grupo de 33 árbitros, entre os quais Carlos Xistra, João Capela ou João Ferreira, entre outros, que exigem uma indemnização de mil euros cada um a Paulo Pereira Cristóvão, por danos morais.
No processo, o antigo vice-presidente do Sporting é acusado de um crime de burla qualificada, outro de branqueamento de capitais, dois de peculato, mais um de devassa por meio informático, um de acesso ilegítimo e um de denúncia caluniosa agravada.
Em dezembro de 2011, dias antes de um de um jogo entre o Sporting e o Marítimo, para o qual José Cardinal estava nomeado como árbitro assistente, foi feito um depósito de dois mil euros numa conta bancária que lhe pertencia.
Posteriormente foi enviada uma carta anónima a denunciar um alegado suborno a Cardinal, carta essa que o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Fernando Gomes, faria chegar à Polícia Judiciária, depois de a mesma lhe ter sido entregue pelo presidente dos leões, Godinho Lopes.
Num outro processo, o antigo vice-presidente do Sporting é desde julho de 2015 acusado de associação criminosa, abuso de poder, violação de domicílio e falsificação de documentos.
