
Juiz-desembargador e defensor das causas cívicas, Rui Rangel, que até jogou com extremo-esquerdo, quer implantar uma cultura de vitória no Benfica e garante que se não o conseguir, sai no fim do mandato
Rui Rangel acredita que será o novo presidente do Benfica a 26 de outubro. Considerando que o atual líder não lhe pode ensinar nada, lança um duro ataque a Vieira e Moniz.
Sentiu-se ofendido com a analogia a Vale e Azevedo?
Não é qualquer pessoa que me ofende. A era pós-Vieira não significa caos, pois o caos já está instalado com este presidente.
Admite que os sócios se sintam assustados com essa lembrança?
Isso é um chavão e um papão que já deu frutos. Não se pode continuar a evocá-lo para tentar enganar os sócios quanto às incapacidades e insuficiências de uma gestão. Tenho uma vida pública há 30 anos e não é Luís Filipe Vieira que me vai ensinar o que são o rigor, a verticalidade e a verdade, seja nas contas ou na gestão de um clube.
Sente-se um aventureiro?
Quando Luís Filipe Vieira foi para o Benfica, que experiência tinha? Tinha uma experiência muito ténue no Alverca, que serviu para levar 11 jogadores deste clube para o Benfica.
Acredita realmente na vitória, ou esta é uma candidatura para marcar presença para o futuro?
No que entro, é para ganhar. Há sempre uma tendência de que quem está no poder ganha sempre, mas vamos inverter essa tendência. Não é para marcar posição, é para ganhar. Há uma enorme onda de descontentamento. Sou benfiquista desde nascença, não um soldado tardio. Este projeto é de gente que sente o clube, não de benfiquistas de última hora.
Tem feito muitas referências a José Eduardo Moniz. Chegou a estar pensado que fosse José Eduardo Moniz a encabeçar esta lista?
Há três anos foi uma das hipóteses equacionadas, agora não. Conheço-o como figura respeitada no mundo da comunicação social e como homem de negócios, não como benfiquista. Eu estou do mesmo lado que há três anos. Tenho princípios de verticalidade e coluna vertebral, não mudo segundo as circunstâncias.
Em fevereiro reconhecia que Vieira tinha "legitimidade genuína para se recandidatar". O que mudou?
As coisas boas da sua governação devem ser destacadas, mas é preciso dizer que a recuperação pós-caos Vale e Azevedo não começa com Luís Filipe Vieira e sim com Manuel Vilarinho. E a minha lista é composta por vários elementos que estiveram nesse mandato. A recuperação não é um trunfo exclusivo de Vieira; a gestão de Manuel Vilarinho está a ser branqueada e isso não honra o Benfica.
Não mudou de opinião?
A nível desportivo, não se pode dizer que vamos lutar para ganhar a Champions e andar sempre no segundo lugar e a reboque do FC Porto; a cultura de vitória está a norte e devia estar no Benfica. E o paladino da sustentabilidade financeira terminou, pois o Benfica tem um passivo de cerca de 500 milhões de euros e os juros da dívida custam 17 milhões de euros. As contas foram chumbadas na última AG, o que representa um chumbo claro à gestão de Vieira. O Benfica tem 95 jogadores contratualizados, quando, à escala de grandes clubes, o normal são 45 ou 47.
Se vencer, qual será a prioridade?
A primeira medida é uma auditoria rigorosa às contas e à gestão de Luís Filipe Vieira. Seria interessante se Vieira dissesse quanto pagou em comissões. As prioridades são as vertentes social, estatutária, financeira e desportiva. O Benfica tem funcionários a ganhar 25 e 30 mil euros; isso não é comportável com este passivo. E os estatutos têm de ser revistos, pois estão blindados para a perpetuação no poder.
Entende que Luís Filipe Vieira estará a prazo? José Eduardo Moniz está na lista para lhe suceder?
Que existe visão bicéfala, existe. Mas não queria fulanizar muito a questão, pois José Eduardo Moniz é uma pequena partícula no universo do Benfica.
Preconiza muito a cultura de vitória.
Consigo na presidência, serão quatro títulos em quatro anos?
Se tiver uma cultura de derrota durante esse período, não apresentarei a minha recandidatura. Não me quero perpetuar, só continuo se conseguir levar o Benfica às vitórias.
Luís Filipe Vieira já deveria ter deixado o Benfica há muito tempo?
É a minha leitura. Congratulo-me por ele se ter recandidatado, mas tudo deve ser colocado em cima da mesa.
Receia que nem toda a verba das vendas de Javi García e Witsel entre nas contas do clube?
Há sempre comissões. Mas gostaria de saber que comissões foram essas, se houve necessidade e quem beneficia com elas. Não ponho em causa a seriedade de ninguém, nem de Luís Filipe Vieira; o que digo é que ele tem uma visão para o futebol errada e que falhou no âmbito da sustentabilidade financeira.
É verdade que Vieira o convidou para se integrar na Lista A?
Confirmo o encontro e que se discutiu o Benfica. Se ele quiser revelar algo, então, depois, também falarei.
Varandas Fernandes diz que foi uma tentativa de unir esforços...
É a opinião dele. Esforços de união só por lugares, não.
