Angelino Ferreira homem de números e de palavra
JORGE FIEL
"Quem gere só com orçamento não vai a lado
nenhum. É preciso dar saltos." Esta frase doutrinária de
Angelino Ferreira chega para explicar porque é que o pai da
empresarialização do FC Porto aceitou voltar a
responsabilizar-se pelo pelouro financeiro na
administração da SAD portista, após Fernando Gomes
ter batido com a porta, farto de andar sempre a fazer orçamentos
suplementares e rectificativos - e de ter de inventar dinheiro para
financiar a aquisição de jogadores que nem sempre se
revelam poços de petróleo.
Empresarialização. Se tivéssemos que resumir
numa única palavra o que este economista de 55 anos tem feito na
vida, o vocábulo certo seria este, com 17 caracteres - um
comprimento quase finlandês.
Angelino começou a frequentar discretamente as colunas dos
jornais quando, com 26 anos, reabriu a Bolsa do Porto, fechada no
pós-25 de Abril, e fez fortuna na compra e venda de
acções até que, aos 40 anos, achou chegada a hora
de rimar profissão com paixão e foi trabalhar para o FC
Porto.
Após uma breve passagem pelo ensino, em 1980 foi trabalhar
para a Bolsa do Porto, preparando a sua reabertura, que viria a ocorrer
a 27 de Janeiro do ano seguinte, no Pátio das
Nações, com solenidade mas pouco movimento. Foi corretor
a nível individual, aguentando a travessia do deserto da
primeira metade dos anos 80, em que a bolsa tinha tanta
animação como o cemitério do Prado do Repouso
à meia-noite.
A entrada de Portugal na CEE foi uma fantástica
injecção de adrenalina administrada directamente na veia
do mercado de capitais. Ao contrário do que aconteceu com alguns
dos seus colegas, como Pedro Caldeira, que perderam o pé e se
deixaram afogar no mar da euforia bolsista, Angelino manteve o nome
limpo e a brilhar, ganhando a fama de ser discreto, rigoroso e
tão fiável como um relógio suíço.
"Foi sempre um tipo sério que nunca se meteu em artistices.
Fazia tudo direitinho, by the book. Nada fora do penico", garante um
antigo alto responsável pela Bolsa do Porto, que em mais de uma
ocasião teve oportunidade de trabalhar com ele de perto.
Quando o crash de Outubro de 1987 baixou subitamente a febre
bolsista, Angelino confirmou ser um first mover, sendo pioneiro na
empresarialização da actividade de corretagem, deixando
de actuar a nível individual e sendo o pivô da
criação da Socifa & Beta, uma dealer com capitais
portugueses e espanhóis.
Apesar de a venda da sua posição na Socifa & Beta
lhe ter garantido um enorme desafogo financeiro, continuou a trabalhar
no mercado de capitais, criando a PARS, uma gestora de
patrimónios onde teve como sócios a Salvador Caetano,
Tertir e Soares da Costa.
Em 1994, o ano em que fez 40 anos, pôs um ponto final à
sua actividade no mercado de capitais para se dedicar à
única paixão que transparecia de um carácter
ultradiscreto e reservado. "O Angelino é do tipo certinho e
trabalhador. Sabe manter com as pessoas um relacionamento bom, se bem
que um pouco distante. É muito cumpridor, ao ponto de a sua
palavra bastar. Não se pode dizer que seja sovina, mas nota-se
que tem respeito pelo dinheiro. A única paixão que lhe
conheci foi o FC Porto - e roçava o fanatismo. Sentia-se que
vivia o futebol", recorda um antigo administrador da Socifa.
No futebol, ajudou, atrás da cortina, a empresarializar o FC
Porto, constituindo a SAD e assumindo o comando directo das
operações da construção e financiamento do
Estádio do Dragão ("Muito mais do que um estádio
é um centro de negócios", precisa Angelino) e do Centro
de Estágio do Olival. Discreto, não gosta de ocupar o
palco e estar debaixo das luzes da ribalta, o que facilitou imenso a
sua integração no ecossistema azul e branco, de pendor
marcadamente presidencialista.
Em 2004, o ano em que fez 50 anos, achou por bem casar trabalho e
família e iniciou a empresarialização da
actividade cinematográfica ao constituir a Yellow Entertainment,
que no dia-a-dia é dirigida pela sua filha Soraia, 29 anos, a
mais velha do casal de filhos de Angelino (o outro Bruno, 27 anos,
licenciou-se em Design de Comunicação e trabalha em
Londres) que após acabar o curso de Gestão, na
Católica, foi para Nova Iorque e Los Angeles (LA) aprender a
gerir produção de cinema.
A Yellow, que está a trabalhar em docudramas e numa
série para televisão, estreou o ano passado a sua
primeira longa metragem, Star Crossed, um remake do drama shakesperiano
Romeu e Julieta, tendo 26 localizações do Porto e Gaia
como pano de fundo - entre as quais o Estádio do Dragão e
o Salão Árabe do Palácio da Bolsa.
"É um postal do Porto", diz Angelino a propósito de um
filme com um orçamento de 2,25 milhões de euros,
produzido segundo os parâmetros de Hollywood, realizado por um
inglês, com a direcção de fotografia de um
israelita e quatro actores estrangeiros.
Mas a partir desta semana, o filme dele é outro e consiste em
garantir que a SAD do FC Porto não se estatela financeiramente.
Porque se "quem gere só com orçamento não vai a
lado nenhum e é preciso dar saltos", para ser bem sucedido no
salto há que - ainda segundo Angelino - preencher uma
condição: "Ganhar".
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