"Pode-se perder o emprego, não os valores"
FILIPE ALEXANDRE DIAS
Sem medo do amanhã. Foi assim, imbuído deste
espírito, que Paulo Bento fez ontem a antevisão do
encontro com o Marítimo. Triste, que não deprimido, o
técnico mantém-se coerente e crente no renascimento do
leão.
Esta semana foi especialmente agitada após o empate em Guimarães. Como é que o treinador a viveu?
Foi mais uma semana de trabalho. Estamos tristes pelo resultado de
Guimarães, mas também pelo que aí jogámos
nos primeiros 45 minutos. Disse-o após o jogo, mas com
capacidade e convicção de que podemos alterar as coisas.
Temos vindo a corrigir as situações negativas desse jogo.
Servem de preparação para o Marítimo. Compete-nos
superar este adversário e voltar a ganhar na Liga.
As declarações do presidente colocam mais pressão sobre o seu lugar ou reforçam-no?
Já passei por outros momentos difíceis no Sporting.
Este surgiu num momento muito precoce da temporada. Mais do que
pressão, tenho a responsabilidade de inverter a
situação. Sabia ao que vinha quando aqui cheguei. Nesta
fase, sei porque me convidaram. Estou desiludido com os resultados na
Liga e com algumas das nossas exibições nessa prova, mas
não deprimido.
Jogadores, equipa técnica e dirigentes puxam todos para o mesmo lado?
Todos querem levar a equipa até ao seu objectivo, na
convicção que podíamos ter feito mais. Todos
estão conscientes das responsabilidades e estamos no caminho
certo para inverter a situação, se possível
já contra o Marítimo.
Se a equipa não mudar de rumo, será capaz de continuar a suportar as críticas?
Vou para todos os jogos com espírito positivo, mas não
posso prever o que pode acontecer depois do jogo de amanhã, nem
isso me preocupa. Não tenho uma pressão muito elevada em
função da nossa situação. Tenho a
pressão normal num treinador do Sporting. Pressão elevada
têm as famílias no desemprego, com dificuldade para
sustentar os filhos, os que trabalham sem saber se recebem no final do
mês. Eu faço o que gosto no sítio que gosto, na
função para a qual me preparei. Quando cheguei a este
cargo em 21 de Outubro de 2005, apresentei-me aos jogadores e
disse-lhes que no dia em que eu sentisse que as coisas acabavam,
despedia-me. Não tenho problemas.
Sem rodeios: o seu lugar fica em perigo se não ganhar ao Marítimo?
Isso não me preocupa nada. Podemos perder muita coisa e uma
delas é o trabalho. Os valores não se perdem. Perdem-se
jogos e provas, mas não valores. Tenho outra herança.
Não a de um tio que me deixasse muita coisa, mas pais, no caso
uma mãe que ainda tenho e me ensina todos os dias o que é
a vida, e tive um pai que me deixou outros valores, que não os
monetários.
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